6/25/2008

De Profundis, Oscar Wilde

Enfim, minha fase de literatura voltou. Estava com saudades. No momento estou lendo a Náusea do Sartre, mas como ainda não terminei vou comentar este pequeno livro do Wilde que terminei a pouco tempo. Trata-se de uma carta que o autor escreveu a um amigo quando estava preso. Este amigo, Lorde Alfred Douglas, foi um dos responsáveis pela tragédia que Wilde estava vivenciando. Portanto, o início é repleto de passagens ressentidas, mas proferidas com uma tonalidade que delineia a honestidade dos sentimentos do autor e, sobretudo, de suas responsabilidades perante os fatos ocorridos que levaram sua prisão. Apenas para se ter uma idéia do que estou falando olha o que encontramos já no segundo parágrafo: “Nossa malfadada e lamentável amizade acabou levando-me à ruína e ao descrédito público e, no entanto, a lembrança da antiga afeição que nos unia está sempre comigo e é bem triste para mim pensar que o ódio, o desprezo e o rancor tomarão para sempre em meu coração o lugar antes ocupado pelo amor” (p. 11). É admirável a forma com que Wilde percebe seu papel e suas atitudes perante os sentimentos e acontecimentos que desencadearam seu encarceramento. Por suas próprias palavras: “Começarei por dizer-lhe que me julgo terrivelmente culpado. Aqui na minha cela escura, envergando este uniforme de prisioneiro, um homem desgraçado e totalmente arruinado, eu me julgo culpado [...]. Culpo a mim mesmo por ter permitido que uma amizade que nada tinha de intelectual, uma amizade cujo objetivo principal jamais foi a criação ou a contemplação do belo, dominasse inteiramente a minha vida” (p. 13-14). E assim Wilde prossegue descrevendo acontecimentos com uma riqueza invejável de detalhes e análises da sua e da personalidade do Lorde Alfred. É sintomático o fato da culpa de Wilde, pois sempre é proferida no sentido de ser culpado “por ter permitido” algo e não por ter feito algo. Seu pecado é sem dúvida a omissão que se contrapõe aos excessos do amigo que o domina e por quem Wilde tem uma paixão.
No decorrer da obra o autor relata vários outros sentimentos que emergem da condição do cárcere. Eu, com minha mesquinha mania acadêmica de destacar trechos e reproduzi-los neste espaço ofereço algumas passagens que achei interessante, sobretudo, pois se tratam de concepções e idéias acerca da arte: “A verdadeira meta da arte moderna não é a extensão, mas a intensidade. Na arte, já não nos preocupam os padrões, mas as exceções [...]. A verdade na arte não é a correspondência entre a idéia essencial e a existência acidental, não é a semelhança entre a forma e a imagem, ou entre a forma refletida no espelho e a própria forma em si; não é o grito que ecoa no vale entre as montanhas, nem o poço de águas prateadas que refletem a imagem da lua pra a lua, ou a imagem de Narciso para Narciso. A verdade na arte é a união da coisa com ela mesma, o exterior tornando-se a expressão do interior, a alma revestida de forma humana, o corpo e seus instintos unidos ao espírito” (p. 102). “O artista está sempre buscando um modo de vida no qual a alma e o corpo sejam uma coisa só, indivisível, em que o exterior seja a expressão do interior e a forma revele tudo” (p. 101).
Outro aspecto interessante relatado é a análise de algumas características da personalidade individualista de Cristo (Isso mesmo, Cristo!). Aliás, o individualismo é recorrente em Wilde, no outro livro que li A alma do homem sob o socialismo este tema também aparece de forma bem interessante. Mas voltamos a Cristo, por exemplo, diz: “Perdoa os teus inimigos”, para Wilde ele “não está prensando no bem do inimigo mas no nosso próprio bem, porque o amor é mais belo do que o ódio. Mesmo quando disse ao jovem: ‘Vende tudo aquilo que possuis e distribui o dinheiro entre os pobres’, não era nos pobres que pensava mas na alma do jovem, naquela alma que a riqueza estava destruindo” (p. 113-114).
Por fim, o maior aprendizado que tem é a convivência com o sofrimento e toda sua beleza.

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