9/16/2006

A Idade da Razão, Jean-Paul Sartre

Sartre é um autor que sempre tive curiosidade de conhecer mais a fundo. Casado com Simone de Beauvoir, outra grande escritora que ainda não tive oportunidade de conhecer, Sartre foi sem sombra de dúvidas um dos maiores filósofos e escritores do século XX. Precursor da filosofia existencialista compreendia que a existência precede a essência e para entendê-la era preciso partir da subjetividade. A partir daí o homem é responsável pela sua existência, cada é um responsável pelo que faz por si e pelos outros: “Assim sou responsável por mim e por todos, e crio uma certa imagem do homem por mim escolhida; escolhendo me escolho o homem”. Não irei me aprofundar na filosofia existencialista, quem sabe em outra oportunidade e em outro lugar. O fato é que todo esse arsenal filosófico está implícito e, às vezes, até explícito, no romance A idade da Razão.
O livro é a estória de um casal de “namorados” de meia-idade em que a mulher fica grávida. Tratava-se de um relacionamento sem muitos compromissos assumidos e resguardados de entregas. Após a notícia da gravidez o protagonista se lança no intento de conseguir dinheiro para realizar um aborto. Durante o processo vários acontecimentos fazem como que ele questione as escolhas de sua vida: “Talvez não possa ser de outro modo; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível, essa trapaça da nossa própria natureza” (p. 212). Em outra passagem fica evidente a filosofia existencialista: “É um dever fazer o que se quer, pensar o que se bem entende, ser responsável perante si próprio apenas, analisar permanentemente o que se pensa dos outros” (p. 168). Há também um certo contato com realidades obscuras de si mesmo: “Estou aqui, saboreio-me, um gosto desconhecido de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isso: beber-se a si próprio sem sede” (p. 62). Revoltas contra o sistema: “Agrada-me indignar-me contra o capitalismo, mas não desejo que o suprimam, porque não teria mais motivos de indignação. Agrada-me sentir-me desdenhosos e solitário, agrada-me dizer ‘não’, sempre ‘não’, e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria que dizer ‘sim’ e fazer como os outros” (p. 151). Outro contra a própria condição dentro dele: “Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida” (p. 95). Confesso que nesta passagem me identifiquei muito. Há também questionamentos sobre a própria liberdade: “Minha vida constrói-se por debaixo desse mito [da liberdade] com um rigor mecânico, um vazio, o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada, de ser sempre outra coisa diferente do que sou” (p. 263). Como as nossas decisões refletem na sociedade: “É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém” (p. 131).
Todas essas indagações se inserem e compõem o universo de um homem que se encontra na Idade da Razão e reflete sobre suas decisões na existência, o que fez na sua vida e no que ela se transformou. Com todos esses questionamentos que vão no fundo da alma de qualquer leitor, não poderia deixar de ter sobre a juventude: “Começo a crer que nós é que somos moços. Queríamos buscar os homens feitos, éramos ridículos, mas eu pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê-la” (p. 262).

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